quinta-feira, 3 de julho de 2025

julho 2025










 



O Guardião da Mó-Lua
Numa planície esquecida pelo tempo, onde os ventos sussurram segredos antigos e a lua cheia parece mais próxima da Terra, ergue-se um velho moinho. Já não mói trigo há séculos — mói almas.

História:

Havia uma vez uma aldeia chamada Ventre de Ferro, cercada por campos de trigo dourado que dançavam ao vento. No centro desses campos, erguia-se um antigo moinho que, diziam os anciãos, só girava quando a lua cheia subia redonda no céu. A aldeia prosperava... até o dia em que o trigo começou a nascer cinzento, e os corvos passaram a vigiar os campos como sentinelas de olhos negros.

Com o tempo, as colheitas secaram e os aldeões foram desaparecendo, um por um. Os poucos que restavam falavam em voz baixa sobre um pacto antigo: o moinho não podia parar. A cada geração, alguém deveria tornar-se o Guardião — um espantalho vivo, amaldiçoado a vigiar os campos eternamente, de costas para o moinho, com os braços abertos em crucifixo.

O atual Guardião, de chapéu largo e cabelos feitos de palha encantada, já não lembrava seu nome. Preso por vinhas mágicas que cresciam da terra amaldiçoada, ouvia o ranger das pás do moinho toda vez que a lua cheia surgia — e com ela, vinham os sussurros dos mortos.

Mas naquela noite em particular, os corvos estavam agitados. Algo mudara. As vinhas que o prendiam começaram a se mover — não mais apertando, mas guiando. Ele não sabia se era libertação... ou transformação. A lua parecia descer do céu, como se quisesse tocá-lo. O moinho girava ao contrário.

E então, ele entendeu: o ciclo estava prestes a se romper. Mas para isso, alguém teria de pagar o preço... ou todos os vivos cairiam nas engrenagens do esquecimento.

terça-feira, 10 de junho de 2025

junho 2025












"A Dama da Rua das Sombras"

Numa vila esquecida pelo tempo, onde a névoa nunca se dissipava e o luar parecia mais um presságio do que uma bênção, vivia uma jovem chamada Elira. Todas as noites, ela caminhava descalça pela Rua das Sombras, com os cabelos ao vento e o olhar perdido em lembranças antigas. Ninguém sabia de onde vinha nem para onde ia, apenas que aparecia sempre ao soar do primeiro sino da meia-noite.

Apenas um companheiro lhe fazia sombra: um gato preto de olhos misteriosamente humanos, que a seguia como se guardasse um segredo — ou talvez fosse o próprio segredo.

A lamparina a gás, no alto do poste enferrujado, tremeluzia sempre que Elira passava, como se reconhecesse sua presença. Diziam os mais velhos que aquela mulher era um eco de outra era, condenada a andar por entre os vivos até que alguém descobrisse a verdade sobre sua morte.

Naquela noite, a lua cheia brilhava com uma intensidade azulada, revelando por breves instantes a silhueta de uma antiga igreja em ruínas. Foi lá que Elira desapareceu há mais de cem anos, noivo traída, envenenada pelo próprio irmão por causa de uma herança maldita.

E o gato? Dizem que é o irmão, transformado por uma maldição. Condenado a segui-la noite após noite, eternamente arrependido.

E enquanto houver pecado não confessado... Elira continuará a caminhar.